E n v o l t u r a S

08 novembro 2006

E N C A R N I Ç A D O

Um lugar sem misturas. Uma casa comum, humilde. Um ordinário bairro. Fez-se silêncio quando curiosos buscavam registros naquela tarde. Tudo em volta era vagaroso. Nas condições em que o haviam encontrado, ninguém fazia o menor juízo do acontecido. Ninguém sabia o que houvera. As moscas, quietas, sequer comentavam o que viram. Espalhavam-se pelo ambiente ora zunindo e brilhando, ora pousadas silenciosas sobre o defunto. Nem aqueles nojentos insetos respeitavam o inútil. Passeavam incansáveis em sua boca, em seu ouvido. Em meio a muita gente contemplei o coitado. Estirado no chão. No sujo chão da cozinha. Tão sujo quanto o copo de morraça que jazia em sua mão. Parecia inchado. Talvez estivesse. Pés descalços, camisa e olhos vítreos abertos. Contemplava o teto ou quem sabe as moscas, decerto. A poça de sangue que esparramava-se ao seu lado tingia desconforto em quem chegava. O cheiro enjoativo impregnava-se na peça. Era cheiro de corpo interrompido, calado. Sobre ele, curvava-se a patroa. Recostados às paredes, os demais. Nem havia cadeiras pra todo mundo. Havia sim muita dor, crianças, uma centena de gentes. Talvez toda rua, ou o bairro inteiro. Vez em quando saía alguém abrindo passagem a outros olhos. Olhos que ali buscavam o que houvera. Depois, quando muitos haviam chegado e saído, sobravam ainda alguns choros gemidos...
Às vezes ouvia-se desespero, susurros, medos, depois mais nada
...

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